segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O brilho dos olhos na ponta da arma ou "É impossível ser feliz sozinho"

"É impossível ser feliz sozinho"...

Eu vi a morte. Vi morrer a ingênua idéia de que o mal não nos alcançará, mesmo "vestido com as roupas e as armas de Jorge". Não há como deter um mal o qual ajudamos a construir. Após tanto trabalho chega a conquista. Para um jovem, quase balzaquiano, adquirir bens é o primeiro passo para estabelecer um patamar de independência que nos dá a ligeira impressão de ascensão. O meu carro, o meu mundo. Essa frase certamente não sairia da minha boca, pois mesmo sendo do sexo masculino e brasileiro, confesso que não endosso essa paixão nacional. Óbvio que gosto de carros, mas nunca tive muita vontade de possuí-los. Quando criança sentava na calçada e contava os carros, sabia as marcas, modelos, mas não era tão pretensioso a ponto de me ver neles. "Eu sou apenas um rapaz, latino-americano sem dinheiro no banco...", risos. Venho de uma família humilde e durante minha juventude alimentei a idéia de que o meu primeiro carro seria um fusquinha de terceira mão. Talvez seja pela comoção que esse carro me traz, pois foi o primeiro carro que me recordo em ter entrado ou talvez por ser lúcido o suficiente para enxergar a minha realidade social, sem muitas possibilidades de melhoria. O mundo mudou. Essa frase não habita apenas os outdoor por conta de campanhas publicitárias. De fato mudou. Hoje um jovem afro-descendente como eu pode almejar ascensão social. As vezes pequenos sinais nos mostram os caminhos que tomamos, as oportunidades que tivemos, a força de nossas famílias, de nossa educação. Mas, nem todos dispõem das mesmas oportunidades e por isso me pergunto: quem era aquele rapaz de boné branco e com o brilho dos olhos na ponta da arma? Após o susto, confesso que praguejei a possibilidade de descarregar uma arma no sujeito caso andasse armado. Naturalmente, esse é o primeiro rompante da raiva. Depois vi que para um sujeito pacifico, o melhor era apaziguar as emoções e dar voz a razão. Aquele rapaz levou meu carro, minha carteira, meu celular e a minha cegueira. Nunca vou esquecer aquele brilho que me ofuscou as vistas... Ainda fitei seu olhar, mas não restava nada mais que uma noite sem estrelas. Aonde anda a esperança? Levantei do carro, busquei o caminho o mais próximo da porta para evitar me esbarrar nele, no intuito de não sussitar a idéia de que tentaria uma reação. Entre o bem material e a vida, fiquei com minha vida. O carro retornou trinta minutos depois, mas sem o som. Aqueles 20 segundos não tocava música nenhuma, mas foi o som (do carro) a sua razão. Minha carteira e meu celular se foram. Ele ainda gritou "como se dá ré nesse carro" e eu quase ri. É que quando o comprei também não o sabia fazer. Diante de tudo isso pensei no quanto a escola poderia transformar essa realidade. Mas na rede pública a educação que deveria libertar é a que contém. A escola é um grande sistema de contensão social. Além disso, as familias estão desestruturadas. Antes ser pobre era motivo de orgulho: "sou pobre, mas sou honesto", isso porque havia educação familiar que moldava o indivíduo, dando-o caráter, ética e moral. Hoje, nem esses valores o pobre pode ter. O "mundo" massacra qualquer sonho, uma realidade dura e corrosiva. Essa tensão social que perante a lei soa contraditória parece intensificar cada vez mais as desigualdades e seus conflitos. Todos somos iguais. Mas aonde? Quando vi aquele brilho dos olhos na ponta da arma. Lembrei de um garoto que dormia na escola, sonhava em ser cientista e adorava quando na mereda escola tinha paçoca. Vim da escola pública, apesar das poucas passagens por escolas privadas (ensino fundamental I), vi pessoas com grandes potenciais se perderem e me pergunto: por que eu cheguei até aqui? É certo que cada pessoa é um mundo. Mas todos quando olham o mar, vêem o mar ("é tudo que não sei contar"). Eu ainda estou um pouco perturbado por tudo que aconteceu... Foi uma perda, porém mais que material. Sei que temos nossa parcela de culpa. Me sinto culpado em fechar o vidro do carro quando uma criança se aproxima pedindo uma moeda. Sinto-me mais culpado quando doou a moeda para me isentar dessa culpa. Constantemente compramos nossos pecados, mas até quando o diabo aceitará nossa propina? Nunca havia entendido tão bem a frase "as crianças são o futuro...". Hoje após tudo, após um banho que me recobrou a serenidade, lembrei daquele garoto franzino de pernas tortas e muito traquino. Olhei no fundo dos seus olhos e busquei de onde vinha aquela luz que o ilumina a vida até hoje. Penso que poderia chorar de raiva por ver o fruto do meu suor ser usurpado, por ter sido agredido, roubado... Mas as minhas lágrimas cairam ao ver que aquele menino poderia ter sido aquele rapaz que carregava o brilho dos olhos na ponta da arma.

Educar não é desistir, nem julgar, nem se omitir e muito menos culpar. Agora, eu não quero mudar o mundo. Quero apenas mudar um olhar. Farei dos meus olhos faróis atentos, ávidos para salvar os naufragos. Aos que estão salvos apontarei às estrelas, aos que estão a deriva estenderei minha mão.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

I Simpósio Internacional do Ensino da Matemática

No dia 19 de setembro de 2008, palestrei no I Simpósio Internacional do Ensino da Matemática sobre o tema "A Robótica na Educação Básica", no Instituto de Matemática, da Universidade Federal da Bahia, no PAF II de Ondina.